(DES)ENCONTROS
Faz um tempo que não escrevo alguma reflexão, mas não significa que não tenha tido muitas ao longo dos dias. Uma, em particular, tem me chamado muita atenção e causado um certo incômodo, para ser honesto. Não se trata do incômodo que tira o sono, mas daqueles que vêm quando sabemos que estamos diante de algo que é importante e que, por isso, não pode simplesmente passar em branco, batido.
Tenho revisitado uma série de relações construídas ao longo da vida, familiares, amigos e afetos em geral. E é muito curioso observar as dinâmicas de muitos desses vínculos. Pessoas que, por pouco ou muito tempo, compartilharam de nossos anseios, alegrias e visões de mundo de uma forma tão íntima, mas que, com o passar dos dias, semanas, meses ou anos, tornam-se meros conhecidos. E o contrário também aconteceu, é verdade.
À medida que a vida vai passando, vamos acumulando as mais variadas formas de interações sociais. A primeira que vem à cabeça, sem dúvida, é a família, mas está muito longe de ser a única. Além dela, há aqueles que são trazidos ao nosso convívio por intermédio de nossos pais e cuidadores, normalmente os vizinhos de rua e de prédio com quem brincamos quando ainda crianças. Há os colegas de escola, faculdade ou qualquer outro lugar de aprendizado, com quem compartilhamos o anseio de ter uma formação profissional. Há os colegas de trabalho, que compartilham das alegrias e infortúnios diários que qualquer meio de subsistência nos proporciona.
Há, ainda, os que passam a conviver conosco por força das mais diversificadas formas de interação social: quem vemos na academia nos mesmos horários de treino, quem frequenta um mesmo templo religioso, quem faz um mesmo curso livre que nós (música, dança, pintura, culinária, etc), quem integra um grupo de leitura ou, simplesmente, quem está em um mesmo grupo provisório, como os passageiros de um ônibus, os que dividem uma fila no mercado, os que estão em uma torcida no estádio de futebol ou os que estão reunidos em uma sala de cinema.
A partir desses encontros, algumas pessoas passam a assumir um caráter mais especial em nossa rotina e, normalmente, passamos a chamá-las de amigos. Compartilhamos nossas alegrias e tristezas, nossos sonhos e receios. A coisa flui naturalmente, sem muito planejamento ou cálculo. É porque é, porque as partes se sentem confortáveis assim, porque faz sentido a dinâmica. As afinidades podem ocorrer em maior ou menor escala, é claro, já que cada um é único. Do mesmo modo, não há equivalência perfeita entre dar e receber, eis que cada um entrega aquilo que sabe e pode dar. Mas, nessa dança, existe uma reciprocidade intrínseca.
Ocorre que, com o tempo, as interações tendem a sofrer mudanças. Os compromissos de cada um reduzem a frequência das comunicações, as diferenças de pensamentos que vão se desevolvendo podem ir tornando aquela conversa já não tão compatível como antes, o surgimento de outras relações podem vir a se tornar prioridade. São os desencontros, que podem levar a um distanciamento com um certo ar de definitividade ou não, a depender da forma como as partes vão conduzindo esses eventos.
É justamente aqui que reside algo que me angustia bastante: a constatação de que algumas relações que foram importantes já não são hoje. E o incômodo vem do fato de que essa é uma sensação que não difere muito de um luto (embora não estejamos falando aqui do falecimento de alguém), de ver que fases passaram, pessoas passaram, versões nossas passaram. As versões que existiam quando interagíamos com essas pessoas. E, não menos importante, o medo que vem de não ser bom o suficiente ao ponto de as pessoas terem decidido deixar nosso convívio, de ser esquecido, deixando para trás.
Essas angústias que compartilho abertamente são irracionais, eu sei. E talvez sejam a voz da criança interior que se apega a suas relações e tem o receio de vê-las partirem, que, não raro, questiona suas próprias qualidades. Isso já foi tema de muita terapia e reflexão, acreditem, e alguns amigos próximos já puderam experenciar a insegurança do medo do esquecimento se manifestar.
A questão é que esses movimentos são naturais da vida. Nós também somos promotores de distanciamentos, desencontros, e isso não significa que tenhamos deliberadamente querido agir assim em boa parte de nossas relações. As coisas simplesmente foram acontecendo. E, normalmente, nossa tendência é focar no que perdemos, desencontramos, e acabamos esquecendo do que ganhamos, encontramos, as pessoas que passaram a fazer parte da nossa vida. Elas sempre chegam.
Algumas pessoas estarão em quase todas as nossas fases da vida, serão mais ou pouco presentes em determinadas circunstâncias. Outras não terão uma comunicação diária, mas, quando encontrarmos, será como se o tempo não tivesse passado. E outras a vida levará para caminhos diversos. Mas, mesmo nesses casos, terão deixado algo especial em nós no período em que conosco conviveram. Porque ninguém interage com ninguém sem deixar um pouco de si e levar um pouco do outro. É uma troca involuntária e, a meu ver, o que mais de bonito há na vida, pois, assim, tornamo-nos imortais.
Por isso, o maior erro é tentar controlar as coisas, querer forçar permanências. Devem ser naturais, espontâneas. E cabe a nós saber que nem todas as relações serão para toda e qualquer coisa. Mesmo os amigos próximos, por serem pessoas, diferentes de nós, não serão companhia para todas as horas, para toda e qualquer atividade que queiramos fazer. A individualidade de cada um deve ser respeitada. E vejam que isso também acontece na família e nos relacionamentos amorosos. Enfim, em qualquer interação humana.
Não olhemos com ressentimento quem já não é mais tão próximo ou quem não quer/pode estar conosco em determinado momento. Isso não pode ser uma métrica a ser levada a ferro e fogo nas relações. Devemos, antes de qualquer coisa, olhar para os momentos compartilhados, as experiências divididas, e entender que eventual desencontro pode ou não ser momentâneo e que, se não for, o papel que aquela pessoa teve na sua vida continua sendo importante. Quem você é hoje traz marcas desse convívio. Nada foi em vão.
O que proponho aqui, num esforço de autorreflexão para meus próprios receios, é encarar a vida com leveza, entendendo que encontros e desencontros são naturais, que não preciso ter todas as respostas, nem tampouco controlar todas as variáveis. As permanências nos confortam, mas quem já não mais está presente também continua tendo sua importância em nossa história. É parte de quem somos.
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