O IMPERFEITO PERFEITO
Ao longo da vida, um de meus grandes desafios sempre foi a relação com as pessoas. Não é exclusividade minha, eu sei. Todos passamos a nossa existência lidando com isso, quer na presença, quer na ausência. Tememos a solidão, fugimos do abandono, buscamos o conforto de estar na companhia de alguém que nos complete. Por mais autossuficiente que alguém afirme ser, quando chega a noite, em seu quarto vazio, a mente é tomada por toda sorte de pensamentos envolvendo os outros.
Eu diria que boa parte das nossas horas são, de alguma forma, relacionadas a terceiros: fazendo o que julgamos que nos tornarão mais aceitos, mais pertecentes a um grupo, emitindo nossas opiniões acerca do comportamento alheio ou, simplesmente, tentando fugir do senso comum. Mesmo a originalidade que alguns buscam é baseada em terceiros, pois, para julgarmo-nos pioneiros, teremos estabelecido alguma comparação com quem acreditamos fazer mais do mesmo.
Nem todos vão reconhecer isso abertamente, é claro. Aliás, muitos sequer racionalizam essas ações. Simplesmente fazem o que estão acostumados a fazer rotineiramente, quase em um piloto automático.
Nesse contexto, alguns vão viver mais ou menos em função dos outros e é justamente nesse ponto que entra esta reflexão, talvez uma das mais duras que eu já tenha feito até hoje. Na verdade, ela já vem acontecendo há um tempo na minha cabeça e, em situações como essa, faz parte do meu processo escrever para significar e, assim, avaliar o que pode ser feito para evoluir. Como um grande amigo costuma dizer, é o chamado "dar nome aos bois", quando a gente consegue materializar percepções e, desse modo, fica possível enxergar com clareza qual é a nossa maneira de estar no mundo, gerando como produto o autoconhecimento.
Eu passei quase a vida toda buscando aprovação externa: na família, tentando ser o filho perfeito; no colégio, tentando ser o melhor aluno, tirando as maiores notas, para ser bem visto pelos professores e colegas; na faculdade, tentando me formar o mais rápido possível, sem falhas (ou com as menores possíveis), para me inserir logo no mercado de trabalho e ser bem visto pela família e os amigos; estudando para concursos, para obter uma aprovação logo e, assim, ser o bom filho que ajuda os pais e não dá trabalho a eles; no trabalho, tentando fazer tudo certo, para ser respeitado pelos colegas de trabalho; nas amizades, fazendo o máximo possível para estar à disposição dos amigos, ainda que em detrimento de minhas vontades e, por diversas vezes, quase me desculpando por impor limites (nas raras vezes em que consegui fazer isso).
Em todos essas interações, depois de alguns anos de terapia e autoconhecimento, consigo enxergar claramente que a baixa autoestima sempre me fez pensar que eu deveria ser extraordinário, perfeito, para as pessoas gostarem de mim. Que eu não poderia falhar, contrariar expectativas, conduzir minha vida da forma diferente daquela sob cujo rótulo foi qualificada pelos outros. E, nesse caminho, acabei deixando de lado o mais importante: eu realmente gosto de quem sou quando tento ser alguém de quem os outros vão gostar? Será que isso realmente é necessário?
A verdade é que, com as reflexões diárias e as observações, fica cada vez mais claro que as pessoas não estão prestando a atenção que imaginamos estarem em nossa vida. Muitas sequer estão tendo esse olhar mais atento para as próprias vidas, quiçá para a de outros. Essa constatação não é para ser pessimista, mas, antes de tudo, uma libertação.
Ao assumirmos que não somos tão observados como supomos, temos a liberdade para sermos da forma que faz sentido para nós mesmos, segundo nossas vontades, tentando corresponder aos nossos anseios. As falhas, evidentemente, virão. E está tudo bem. A exigência de ser perfeito é uma imposição nossa, não dos outros, até porque a noção de perfeição, em si, não é absoluta. O que julgamos estar perfeito certamente é incompleto sob a ótica de outra pessoa, segundo suas percepções e experiências de vida.
Logo, a autoexigência da perfeição acaba sendo uma das maiores crueldades que podemos ter para conosco, pois é inalcançável, é uma qualificação totalmente relativa. Vai variar de acordo com o observador e segundo o nosso momento de vida, que vai demandar formas diferentes de enxergar o mundo e, consequentemente, de conformar nossas ações.
Além disso, quando exigimos de nós mesmos o que supomos ser perfeito, tendemos a projetar essa mesma exigência em nossas relações, tornando-nos juízes que não admitem as falhas das pessoas com quem convivemos. E, quanto maior a importância dessas pessoas para nossas vidas, maior será o julgamento. E ele, sem dúvida, não ficará por muito tempo restrito aos nossos pensamentos. Em dado momento, irá transbordar e iremos exigir uma contrapartida, tendo por base a métrica de como agiríamos.
Isso não tem como ter um resultado positivo. Se a pessoa se esforçar para dar a contrapartida exata, nunca saberemos se ela foi sincera ou se ocorreu apenas porque houve a nossa exigência. Se a pessoa der a contrapartida dentro de suas possibilidades, mas aquém de nossa régua, acharemos que não há reciprocidade. Por fim, há também o cenário em que, apesar de nossa exigência, a pessoa nada fará. Em todos esses casos, teremos mobilizado uma energia mental que nos consumirá sem agregar nada construtivo. Pelo contrário. Virá, na sequência, a culpa, a ressaca moral.
Mesmo que, no final das contas, tenhamos exatamente a resposta que esperávamos, nunca será suficiente para nos preencher. E por quê? Porque quando a gente não se autovalida, não gosta de si pelo que é - e não para satisfazer o que achamos que os demais esperam de nós -, não há conduta dos outros que vá nos convencer de que temos valor, de que vale a pena estarmos na vida de quem nos é importante. Afinal, como esperar que os outros nos convençam de algo que nem mesmo nós estamos convencidos?
E percebam a contradição envolvida nisso tudo: ao buscar nos adequarmos aos anseios das pessoas, impomo-nos um paradigma de perfeição que tendemos a usar como régua para medir as ações desses mesmos outros, cobrando uma contrapartida equivalente aos nossos esforços, na expectativa de aferir se o que estamos fazendo está sendo suficientemente bom para sermos aceitos. Como a resposta nunca será algo positivo, ficaremos presos a um ciclo vicioso, achando que a resposta esperada não veio por falta de esforço nosso, doando-nos ainda mais, exigindo ainda mais e frustrando-nos ainda mais. E, nessa verdadeira prisão, a visão que temos de nós mesmos vai se deteriorando cada vez mais.
E como sair desse ciclo? Aprendendo que, enquanto a gente não buscar o valor em si próprio, independentemente de qualquer aprovação ou validação externa, o vazio nunca deixará de existir. Estaremos fadados a uma eterna busca de aceitação dos outros, o que nunca nos fará completos, nem permitirá que tenhamos uma identidade própria. É que, se o nosso ser estiver constantemente se ajustando ao que entendemos ser o esperado pelos outros, ele nunca será algo próprio, autêntico, de que valha a pena gostar. Se nem a gente sabe quem é e se enxerga como digno de valor e admiração, ou seja, não gosta de si, como esperar que os outros gostem?
Talvez essas conclusões pareçam óbvias, tal como a metáfora da máscara no avião, que deve ser colocada em nós mesmos antes que passemos a colocar nos demais em caso de emergência. Mas, acreditem, o óbvio precisa ser reafirmado no cotidiano das nossas ações. Ao menos comigo é essencial, pois é um jeito de agir construído ao longo de praticamente uma vida inteira. Não vai mudar do dia para a noite, e eu tenho que lembrar disso todas as vezes que falhar na tentativa de ser diferente.
Parte fundamental do processo de autoconhecimento é entender que a gente vai errar muito ainda antes de mudar nosso padrão de comportamento. E a postura diante do erro não pode ser de autopunição, culpa, mas sim de resiliência e gentileza consigo próprio. Eu errei agora? Sim, mas estou buscando ser diferente, melhor a cada dia. Os erros vão vir de vez em quando, espaçando-se no tempo, até que a mudança que começou com a autopercepção se concretize em uma nova forma de agir, aceitando as imperfeições que me tornam único, perdoando-me por ter sido muito duro comigo em meus julgamentos excessivos.
Por outro lado, não podemos esquecer que os que tentam ser perfeitos, para além do excesso de cobrança de contrapartida, acabam afastando as pessoas por serem um lembrete diário de tudo aquilo que elas não são, obrigando-as a ver pontos obscuros de seu próprio jeito de ser que não querem olhar mais atentamente. É como se estivéssemos obrigando as pessoas a reconhecerem seus pontos fracos e a serem diferentes, para se adequarem aos nossos supostos pontos fortes, quando a mudança deve sempre partir de um processo próprio, de autoconhecimento, sem exigências ou pressões externas. No fundo, trata-se do exercício da empatia pura e simples: não devo causar o desconforto que não quero que me causem.
E, de repente, sem perceber, um certo dia amanheceremos gostando de quem vemos no espelho, entendendo que é alguém que merece ser amado e valorizado. As pessoas que efetivamente gostarem de nós gostarão justamente por conta dessa essência, que será única, e não uma versão artificial criada unicamente para satisfazer interesses alheios. E, com isso, os limites que eventualmente impusermos serão respeitados e os nossos erros não afastarão essas pessoas, pois quem gosta de verdade de nós dificilmente deixará de gostar por não estarmos enquadrados em um modelo de perfeição.
E, assim, estaremos seguros, sem o medo de que as pessoas saiam de nossas vidas caso deixemos de interpretar o personagem que acreditamos ser de seu agrado. Se alguém partir por ver o nosso verdadeiro eu, é porque nunca foi ou deixou de ser compatível com nossa verdadeira essência. E está tudo certo que vá embora. Faz parte da vida. O que não faz sentido é deixarmos de construir nossa própria identidade, valorizarmo-nos, com o receio de que isso vá afastar os outros. Jamais seremos unanimidade, porque ninguém é, nem nunca foi.
O que consideramos imperfeito sempre será perfeito para alguém, e, para que consigamos enxergar isso, devemos nós mesmos encarar essas imperfeições como algo perfeito, porque único, quem somos, a nossa essência neste mundo. Essas são as relações verdadeiras que devemos construir, as quais passam pelo necessário reconhecimento do autovalor intrínseco, que é desenvolvido independentemente e apesar dos anseios dos outros. O imperfeito perfeito.
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