ESCOLHAS
Na vida, pensamos em tantas possibilidades quando somos jovens. Projetamos nossos desejos e, por vezes, somos a projeção dos desejos de nossos pais ou daqueles que desempenham esse papel em nossa formação. Sonhamos com inúmeros caminhos de realização pessoal e profissional, sem ter a certeza de qual deles deve ser trilhado.
Tudo parece ser viável e, ao mesmo tempo, assusta o fato de que, ao escolhermos uma rota, estaremos abrindo mão de outras tantas. E se tivermos escolhido errado? E se tivermos deixado de optar justamente por aquele trajeto que iria nos tornar realizados?
Já me fiz - e ainda faço - por muitas vezes esses questionamentos e acredito que todo o mundo os faça com certa frequência. Afinal, é sempre tentador olhar para trás e imaginar como estaríamos hoje se tivéssemos tomado determinada decisão no passado. Mas, vejamos o quanto isso, se formos parar para pensar racionalmente, não faz sentido, além de ser cruel para conosco.
As reflexões acerca do que poderia ter sido costumam surgir depois de termos vivido experiências decorrentes da opção por determinado caminho. Logo, se esses passos não tivessem sido dados, não teríamos condições de avaliar a possibilidade do que não foi escolhido. Só nos tornamos a pessoa que hoje faz esse juízo reflexivo crítico justamente por termos passado por aquilo que agora avaliamos que não deveríamos ter experienciado.
Seguindo esse raciocínio, somos o que somos graças ao que vivemos. Se nos fosse possível voltar ao passado, não seríamos as mesmas pessoas de hoje e, talvez, fizéssemos as mesmas escolhas de que hoje nos arrependemos.
Além disso, supondo que, ao voltar, escolhêssemos justamente o caminho que hoje julgamos que teria sido o melhor, não há garantias de que o seu resultado seria o que esperávamos que fosse. Afinal, poderiam ocorrer circunstâncias não mapeadas por nós que levassem a um desfecho completamente imprevisto. E isso, meus caros, deve-se ao fato de que não controlamos o curso da vida e suas múltiplas variáveis.
Por outro lado, mesmo os caminhos de que nos arrependemos nunca são em vão, pois nos trazem aprendizados que moldam o nosso jeito de ser. Permitem-nos avaliar e ter condições de definir com maior certeza aquilo que faz sentido para nós. E, nesse processo, vamos também ressignificando nossas próprias prioridades diante da vida.
Todos nós estamos em constante mudança e transformação, passando por diversos ciclos. O que no presente nos é essencial pode já não ser no futuro. E há também a possibilidade de que coisas que havíamos deixado para trás voltem a fazer sentido nos dias atuais. Por mais que as pessoas estranhem isso, não há qualquer anormalidade.
Não é justo nos torturarmos com o arrependimento de escolhas feitas, porque, quando as fizemos, éramos pessoas diferentes de hoje. Não contávamos com informações que hoje estão ao nosso alcance, sem falar que, por vezes, uma redefinição de rota é justamente o que nos faz ter maior clareza em relação ao nosso pertencimento à rota anterior. A velha máxima de José Saramago de "sair da ilha para enxergar a ilha", de que tanto gosto de me valer em minhas reflexões, aplica-se com perfeição aqui.
Com isso, vem a constatação de que apenas nós temos condições de saber quais os sapatos nos caem bem para percorrer as estradas deste mundo, o que faz sentido para nós. Nenhuma outra pessoa pode avaliar isso. Logo, não devemos permitir que a genuinidade de nossas escolhas seja desacreditada por quem quer que seja. Não temos o compromisso de sermos coerentes na nossa tomada de decisões com ninguém além de nós mesmos.
Mesmo a alegada incoerência, quando vista de mais perto, demonstra-se inexistente, pois a pessoa de hoje não pode ter suas decisões comparadas com a pessoa de ontem. São indivíduos distintos, diferenciados pelas experiências que intermedeiam o passado e o presente.
Portanto, sigamos pela vida escolhendo sem medo de errar e de mudar os caminhos. Nenhum tempo de percurso terá sido perdido. Só temos que ter medo mesmo é de deixarmos de viver. Esta sim é a maior incoerência: com o arrependimento do que passou, deixarmos de seguir adiante ou tentarmos alinhar nossa rota às expectativas alheias em detrimento do que, para nós, verdadeiramente faz sentido.
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