RECIPROCIDADE

Reciprocidade é sabermos que nossa forma de demonstrar apreço por alguém encontra uma contrapartida, que existe uma bilateralidade entre ambas as partes. 


Na teoria, creio que todos sabemos do que se trata. Mas é na prática que surgem os maiores desafios, dado que ninguém é igual a ninguém. Cada pessoa tem a sua maneira individual de expressar afeto, estando presentes nesse processo inúmeras variáveis, como a máxima de que as pessoas dão aquilo que aprenderam a receber. 


Aceitar essas diferenças é algo muito difícil. Ao menos para mim, sempre foi o cerne das minhas grandes questões de relacionamento com as pessoas, sejam familiares, com amigos ou românticos. Como saber que nossos esforços afetivos encontram respaldo, que nossos destinatários também se importam conosco? Como medir essa suficiência? 


A tendência é a de usarmos a nossa régua: eu ajo assim quando me importo com alguém. Logo, para verificar se essa pessoa se importa comigo, vou esperar que aja da mesma forma. Só que isso é um caminho extremamente perigoso e cruel. É uma fonte de frustrações, porque ninguém vai se enquadrar na nossa régua. Nem mesmo nós nos enquadramos nela na maior parte das vezes. É um padrão de exigência por demais rígido e inalcançável, que tende a sufocar qualquer relacionamento. 


Mas e aí? O que pode ser feito para ter um mínimo de segurança? Bom, aqui vai a má notícia: nunca estaremos seguros. Relacionar-se é se lançar na insegurança, pois envolve outra pessoa, outra realidade, coisas que fogem completamente ao nosso controle. Não há previsibilidade possível. 


Contudo, penso, sim, que há um mínimo essencial em qualquer relação que pode guiar o sentido dos nossos esforços. Tomarei a liberdade de tentar dividi-lo em duas premissas. 


Em primeiro lugar, as coisas devem acontecer naturalmente, espontaneamente, sem que forcemos vínculos de afinidade. Quando algo precisa ser cobrado, é porque não é natural. Nesse processo, fica claro que não seremos íntimos de todos. E isso é mais do que normal, pois, assim como muita gente não é compatível com nosso jeito de ser, nós também não somos com qualquer um. Não gostamos de todo o mundo. 


Mas, é claro, o fato de não gostarmos de todos e de não sermos uma unanimidade de aceitação não significa que o respeito não deva existir. A afinidade ocorre naturalmente, não é uma opção. Porém a forma com que tratamos os outros, faltando ou não com o respeito, é opcional. Está dentro do nosso escopo de racionalidade. 


Em segundo lugar, devemos estar atentos para fatos objetivos que demonstrem uma possível ausência de priorização dos outros para conosco. É difícil, sei. Porém, devem ser situações em que fique claro que a forma com que a pessoa nos tratou não é diferente da que trataria qualquer outra pessoa que reconhecidamente não tivesse tanta importância em sua vida.


Por exemplo: alguém que se importa muito com os pais, mas fica dias sem falar com eles sequer por telefone. Como esperar que a demonstração de reciprocidade dessa pessoa conosco sejam ligações diárias? Foge à coerência comportamental. 


A partir desses dois indicativos, que tenho tentado utilizar em minha vida - falhando inúmeras vezes, diga-se de passagem, tamanha a dificuldade -, poderemos chegar à conclusão de que a ausência de reciprocidade está apenas na nossa cabeça ou que ela realmente condiz com nossas desconfianças. 


Nesse segundo caso, a última coisa que deve ser feita é tentarmos forçar uma situação de afinidade. As coisas são o que são e está tudo bem. Não devemos tentar caber em lugares e situações que não se compatibilizam conosco, sob pena de violarmos a nossa própria individualidade, o nosso autovalor. 


E, naturalmente, a incompatibilidade não quer dizer que tenhamos menos significado. Apenas que, naquela relação, ele não tem a dimensão que depositamos. Em outras relações, seremos o muito que julgamos ser pouco quando não há reciprocidade. 


Basta pensar que uma chave de fenda não é menos importante que um martelo por não poder ser utilizada para fixar um prego na parede, assim como o martelo não é mais irrelevante por não ter serventia para parafusar um parafuso. É uma analogia um tanto curiosa, mas penso que serve ao seu propósito.


Contudo, sigo reforçando que é difícil essa análise. Não está nem nunca estará, penso eu, resolvida por definitivo na minha vida, assim como na vida de tantas outras pessoas. Afinal, não há fórmulas prontas para situações que sempre trarão uma especificidade, porque cada pessoa é um universo próprio. 


De todo modo, mesmo que, no final das contas, identifiquemos que determinada relação não é recíproca, certamente outras em nossa vida serão. E nosso valor intrínseco enquanto pessoa seguirá presente, independentemente da reciprocidade. E, acima de tudo, devemos lembrar sempre de reforçar nosso autovalor, que deve existir de forma dissociada da percepção que as outras pessoas tenham a nosso respeito. 

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