PRESENÇA

No final de semana de 20 e 21 de abril de 2024, visitei amigos em Brasília, ficando hospedado na casa de dois deles, os quais, apesar do pouco tempo que conheço, assumiram um grau de importância enorme na minha vida. Daquelas sintonias que a gente não consegue explicar, apenas sentir. 

Acabou sendo o reencontro da “família douradense”, meus companheiros de “trincheiras” da primeira lotação no trabalho, em Dourados/MS, no longínquo ano de 2014, o mesmo da Copa do Mundo que transformou 7x1 em sinômino de frustração no futebol. 

E as coisas aconteceram de forma curiosa. Depois de muitas conversas com o amigo em cuja casa fiquei hospedado - com quem divido a paixão pela área ambiental, de onde hoje estou temporariamente afastado -, decidi comprar as passagens e avisei a outro amigo que também mora no Rio. Avisamos aos demais que residem em Brasília, que avisaram à amiga de Goiânia. Resultado: conseguimos uma reunião com todos os presentes após quase 10 anos. 

E esse final de semana me trouxe diversas reflexões. A primeira delas é a de que, quando os laços entre as pessoas são fortes, quando elas se encontram, é como se não tivesse passado um dia sequer sem estarem juntas. Cada um mudou, evoluiu, alguns tiveram filhos ou agregaram novos personagens à fotografia, mas a amizade está ali. A cumplicidade, o senso de família. 

A outra reflexão foi sobre a presença. Senti uma plenitude como há muito não sentia. No caminho para o aeroporto, vinha conversando com o amigo que me recepcionou em sua casa que os dias passaram rápido demais, mas foram intensos de tal forma, que trouxeram a sensação de terem sido um período maior. 

No café da manhã de sábado, eu já pensava no quão raro era estar sentando a uma mesa em que todos de fato se encontravam por inteiro. Sem distrações, sem celulares, sem pensamentos secundários acerca de outras coisas enquanto cada um falava. Todos ali, sentados, apenas contemplando a presença dos demais. Eu fiz questão de expor essa reflexão ao amigo e sua esposa, meus anfitriões queridos.

A sensação foi de estar presente, me sentir presente, e não apenas um esboço de emoções com que o automatismo do dia-a-dia vai nos levando a exercer sem que percebamos. Uma vida no piloto automático em que o real cede lugar ao virtual e ninguém está por inteiro em nenhum lugar com ninguém (nem consigo mesmo, na verdade). 

Buscamos tantas coisas, projetamos tantas ansiedades em variáveis que desconhecemos, mas que tentamos controlar, e, no processo, ficamos paralisados sem saber onde estamos, quem somos. E isso se deve ao fato de não estarmos presentes, de estarmos constantemente em meio a inúmeras distrações que nos afastam de nós mesmos e, por consequência, dos outros.

Em tempos de instantaneidade da comunicação, de encurtamento de distâncias, nunca estivemos tão distantes uns dos outros. A facilidade de acessar qualquer um a qualquer momento faz com que diminuamos a importância dos nossos encontros, do momento juntos. A ilusão de que poderemos fazê-lo a qualquer momento faz com que estar por inteiro no presente seja adiado para um futuro que pode não chegar. 

No passado, as pessoas ansiavam dias pela chegada de uma correspondência escrita cuidadosamente por aqueles que lhes eram importantes. Depois, vieram as ligações telefônicas prolongadas, sucedidas pelos e-mails, as mensagens de texto por SMS, até as redes sociais, sendo a mais relevante o WhatsApp. 

Pessoal e profissional se confundiram no uso dessa ferramenta, que nos mantém diariamente conectados, não raras as vezes de forma sufocante. 

Longe de mim ser contrário às facilitações da comunicação. Isso foi e é essencial. Propiciou uma série de avanços em diversos campos humanos e foi, sem dúvida, um poderoso elemento de aproximação entre as pessoas durante o necessário isolamento físico imposto pela Pandemia do COVID-19 nos anos de 2020 e 2021. 

O que pretendo é trazer a reflexão do equilíbrio, que é tão necessário para todos. E ela se aplica muito a mim. Faço a minha culpa sem qualquer medo de autocrítica. 

A diferença entre o remédio e o veneno, como dizem, está na dosagem. E penso que isso se aplica perfeitamente à integração virtual. Ela é um caminho sem volta, isso é um fato. Mas a intensidade com que afeta a nossa vida pode, sim, ser controlada por cada um de nós de forma consciente. Eu diria que é necessário. 

Não podemos deixar que a oportunidade de estar presente por inteiro nos encontros com aqueles que nos são importantes, que amamos, seja relegada a segundo plano enquanto deslizamos o feed do Instagram, checamos e-mails de trabalho em períodos fora do expediente (quando não há urgência envolvida, claro), vivemos através da tela mais preocupados em registrar o momento do que vivê-lo. 

Estamos todos adoecendo como sociedade por conta desse desequilíbrio. Estamos perdendo o foco para coisas mais complexas, que demandam mais atenção. Estamos querendo que as coisas se resolvam do dia para a noite sem saber apreciar o processo necessário por que devemos passar para que isso aconteça. O imediatismo virtual está nos matando aos poucos. 

Esses dois dias me lembraram do que é estar vivendo momentos sem que a cabeça viaje por um sem número de preocupações. Lembraram-me do que é estar na presença de pessoas que estão presentes e para quem a nossa presença é tudo que basta. Com quem podemos partilhar nossas visões de mundo de forma não apressada, porque sabemos que não há o risco de o interesse e a atenção se perderem, cederem lugar a uma rápida checada no smartphone ou a um pensamento qualquer. 

Há muito tempo não me sentia tão inteiro. Foi significativo demais. E certamente vou buscar reforçar essa mudança em minha vida. Talvez essa presença que falta seja a razão de tanta ansiedade que, frequentemente, impacta os meus dias. 

Foi um final de semana de catarse, na cidade que transformou minha vida radicalmente, seja profissionalmente, seja pessoalmente, trazendo amigos que hoje são minha família. Cresci muito e cresço diariamente com essa convivência, mesmo que ela seja mais a distância. Aqui efetivamente é válida a facilidade de comunicação virtual. Mas, estando presente fisicamente, não há como isso não ser mais importante em detrimento de qualquer outra forma de interação. 

Escrevo este texto já voltando para casa, deixando uma Brasília que comemora mais um aniversário, dez dias após o meu próprio. Apesar de nunca ter morado nela, é uma cidade por que nutro um carinho especial. É sempre um prazer estar nela, porque isso significa a possibilidade de exercer a presença junto a pessoas tão importantes. 

Só tenho a agradecer por mais esta oportunidade, porque, de presença em presença, vou construindo quem sou e fazendo da minha vida algo real.

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