FINAL DE ANO: TÁ TUDO BEM NÃO ESTAR FELIZ

Eis que chegou o final do ano, com todos os clichês que lhe são muito próprios. As lojas apinhadas de pessoas em busca dos presentes ideais, os comerciais clássicos de Natal passando na TV, os filmes natalinos a que já assistimos um sem número de vezes sendo exibidos mais uma vez, as crianças fazendo filas nos shoppings para tirar a foto com o Papai Noel, as famílias fazendo planos de como será a ceia do dia 24 de dezembro… Aquele clima de felicidade instantânea no ar, que a todos contagia e faz crer que tudo será melhor. 

Mas será que todos estão realmente felizes nesta época do ano? Será que temos que estar felizes nos derradeiros momentos do ano? Por que nos sujeitamos a essa imposição social? 

Bom, este não é um texto pessimista, preciso deixar isso bem claro de início. Nem tampouco é minha intenção desmerecer a carga simbólica que o Natal e o Ano Novo carregam consigo. Pessoalmente, acredito em Deus ou a denominação que tantas outros credos venham a adotar. A reflexão que quero trazer é sobre a obrigatoriedade de estarmos sentindo algo que necessariamente não estamos só por causa da época do ano que estamos vivenciando. 

Por inúmeras razões, as festividades podem não ter o colorido de outrora. Podem já não estar mais presentes as pessoas que davam um sentido especial para esses momentos - esse, pessoalmente, é o meu caso -; pode haver aquela sensação de convivência artificial, de mero encontro protocolar entre pessoas cuja única coisa que guardam em comum é um vínculo de parentesco. Que não se encontram e não partilham da vida ao longo de todo o ano, mas se sentem obrigadas a estarem juntas nessas datas porque assim foi determinado pelas convenções sociais. 

Quantas e quantas coisas fazemos porque assim é esperado que façamos? Um convite de casamento enviado a pessoas que não são tão importantes, mas que são parentes; um elogio que não reflete o que efetivamente pensamos, mas que é de bom tom fazer; a presença em um lugar onde não queremos estar porque “fica chato” não ir.

O ponto é que, em meio a tantos protocolos sociais, vamos nos perdendo daquilo que realmente faz sentido para nós, o que queremos de fato fazer. E isso envolve o próprio sentimento. A felicidade não é algo que determinamos que deva acontecer, que devamos estar sentindo. E, mesmo as pessoas mais bem resolvidas segundo a ótica do senso comum, não são felizes o tempo todo. Pensar o contrário é ingenuidade ou estupidez. 

Sendo assim, está tudo bem acordar nos dias de Natal e Ano Novo sem estar sentindo a euforia que as pessoas dizem que deveríamos estar sentindo. Não há nada de errado nisso. Na verdade, eu arrisco dizer que muita gente não se sente desse jeito, mas não ousa reconhecer sequer para si mesmo, para não se achar um estranho em meio à explosão de felicidade coletiva que é propagada.

O humano é deixar sentir o que estivermos sentindo, sem tentar cercear sentimentos negativos, censurar-se por os estar sentindo. Isso é uma violência consigo próprio. Além de ser uma verdadeira desonestidade com a própria essência. Ninguém será pior por não querer esboçar um sorriso na ceia de Natal. 

Não será ingrato por isso. Será apenas uma pessoa que se permite sentir o que sua natureza está determinando naquele momento. E aqueles cujas opiniões efetivamente importam, que se preocupam e têm um afeto genuíno, saberão entender. Mesmo que não entendam, temos que ser coerentes conosco. 

Dito isso, é claro que espero as melhores coisas nessa época, assim como em qualquer outro dia. Como já tive a oportunidade de escrever, ninguém levanta da cama desejando o pior. Mas, se não estiver feliz, não vou me punir por isso. Saberei que faz parte dos tantos altos e baixos que fazem da vida o que ela é: uma tela de contrastes. Até porque a própria ideia de felicidade pressupõe que haja momentos tristes. Se tudo fosse linear, como saberíamos o que é o quê? 

Boas festas a todos! Desejo que estejam felizes, mas, acima de tudo, que não se culpem caso não se sintam dessa forma. 




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