EXPECTATIVAS

"Hoping for the best, but expecting the worst" é uma das frases mais significativas de uma das músicas de que mais gosto, "Forever Young", da banda alemã Alphaville. Em tradução livre, significa "Desejando o melhor, mas esperando o pior". Isso me diz muito sobre uma forma de encarar as tais das expectativas, essas companheiras incômodas de viagem nesses singelos 35 anos de caminhada neste mundo...rs 

Eu, como não canso de repetir em alto e bom som a todos aqueles dispostos (ou não tão dispostos) a ouvir, sou uma pessoa ansiosa. E a ansiedade traz consigo uma inegável necessidade de controle do futuro, porque nós, ansiosos, ao imaginarmos tantas variáveis possíveis, queremos ter um mínimo de segurança para conseguirmos levantar da cama no dia seguinte e não acharmos que é o fim do mundo. 

Isso traz uma série de implicações no dia-a-dia. Desde querer ter uma previsibilidade sobre a própria agenda, por menor que ela seja, a ficar a espera daquela resposta a uma mensagem escrita no WhatsApp (ou em qualquer rede social que seja). Minutos se transformam, literalmente, em uma eternidade.  

A modernidade, com todo o dinamismo de comunicação, veio assombrar os ansiosos com a expectativa de uma resposta imediata aos seus questionamentos, ainda que eles não necessariamente demandem essa urgência. Aliás, quase sempre o que é urgente para o ansioso se resume a ter a satisfação de saber que foi respondido logo, que vai poder colocar em sua prateleira interna de organização mental a resposta por que ansiava. É mais sobre ser respondido e não tanto sobre o conteúdo da resposta. 

Tudo isso pode parecer absurdamente irracional. Acreditem, eu sei. Todo ansioso sabe. Mas vai além da racionalidade. É um trabalho diário de desconstrução, de entender que as complexidades da vida, que cercam a todos indistintamente, com suas próprias nuances, não são compatíveis com esse imediatismo. É sobre entender que esse controle nada mais é do que a mesma coisa que tentar segurar um punhado de água entre as mãos. É impossível. 

A vida é imprevisível, as pessoas passam por situações que as impedem de responder de imediato, enfim, há um sem número de justificativas antes de se supor que é proposital. Um exercício interessante é pensar sempre que quase nunca as razões são sobre nós. Seria essa uma pretensão egocêntrica por demais exarcebada. Imaginar que as atitudes dos outros estão ali para nos atingir pessoalmente. 

Para além disso, não podemos esquecer também que cada um tem uma forma diferente de estar mundo. E ainda bem que é assim! Imaginemos o quão tedioso seria se vivêssemos cercados por múltiplas versões de nós mesmos. Olhar no espelho tão a fundo nunca é confortável...rs Sem falar que o crescimento vem justamente do compartilhamento de experiências, o que pressupõe a existência de diferenças. Afinal, o que se extrai de novo de uma relação entre iguais?

Tomando por premissa essa máxima de que cada um é diferente, ganha lugar uma outra perspectiva fundamental: o fato de a resposta não ser nos moldes que gostaríamos que fosse pode ser encarado como um desinteresse da outra parte? Será que o outro precisa agir exatamente como agiríamos para demonstrar que se importa conosco?

Ora, confesso que essa sempre foi uma de minhas grandes questões de divã em infindáveis sessões de terapia. No fundo, a tendência de usar a minha régua comportamental para aferir o jeito de os outros estarem no mundo. E isso, além de ser completamente injusto, é cruel com todos os envolvidos: com quem usa a referência, porque estabelece um patamar inalcançável de reciprocidade, ao ponto de deixar que isso impacte na própria autoestima, supondo que ninguém se importa consigo, que sempre dá mais do que recebe; e com quem é objeto da métrica, que, cedo ou tarde, será cobrado a agir conforme as expectativas do outro, ainda que isso seja em prejuízo da própria individualidade. Pior: será cobrado a dar mais do que consegue. Porque, no final das contas, cada um dá o que pode, conforme suas experiências e vivências. 

Não seria, então, um legítimo exercício de empatia compreender que a reciprocidade sempre se dará de acordo com as possibilidades do outro e não como esperamos que seja, dentro de nossa necessidade ansiosa de controle? Entender que a vida não é uma competição para ver quem está mais disponível e se importa mais (segundo as próprias referências)?

Voltando à frase de início, entendo que a forma de encarar as expectativas "desejando o melhor, mas esperando o pior" não é uma postura pessimista, como pode parecer a um primeiro olhar. Pelo contrário. É aceitar que a gente deseja sempre o melhor (ninguém levanta da cama almejando coisas ruins), mas precisa estar preparado para que os acontecimentos não sejam exatamente como pretendemos, porque geralmente eles não são. Podem ser aquém, acima ou completamente dissociados das expectativas criadas. Aquela pessoa pode se comportar de forma absolutamente diversa do que esperávamos. E tá tudo bem, porque não controlamos o que acontece. Controlamos o que desejamos, mas não a maneira como isso se concretiza no mundo. 

Portanto, quando espero pelo pior, assumo, de forma racional, que a vida, as pessoas, enfim, tudo o que existe, está além de qualquer possibilidade de controle. 

Não digo para não ter expectativas, porque sei que não tem como. Por mais que alguém diga que não tem nenhuma, certamente as terá criado em uma ou mais circunstâncias da vida, porque é humano. É intrínseco a um planejamento mínimo de futuro. O que deve ser objeto de atenção, contudo, é o modo como essas expectativas são encaradas. Não podem ser verdades absolutas, sob pena de sua frustração gerar paralisia. E, aqui, meus caros, é onde o ansioso luta para evoluir. Mas vou seguindo um passo de cada vez, um controle a menos por vez. "Hoping for the best, but expecting the worst..."

 

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