AO FUTURO POSSÍVEL
Ontem, estive em uma festa de família comemorando os 70 anos de uma tia avó, esposa de um dos poucos irmãos de meu avô materno que ainda estão vivos. A última grande festa para celebrar a vida dessa mesma tia foi há 10 anos, para comemorar seus então 60 anos.
A perspectiva dessa comemoração, e a reunião com a família em si, desencadeou uma série de reflexões que, no dia de hoje, intensificaram-se após conversar com uma grande amiga. O assunto: as perspectivas que temos sobre o futuro e o quanto que elas nos impactam no presente. Talvez pareça estranho para diversas pessoas, mas quem tem ansiedade certamente entenderá. É justamente o meu caso.
Há 10 anos, quando estava em vias de completar 25 anos, ainda era estudante, embora já graduado, mas seguia buscando um lugar ao Sol em meio aos concursos públicos. Sonhava com isso, com a possibilidade de ter uma estabilidade, de fazer a diferença no desempenho da função pública, de mudar a minha vida e a de minha família para melhor.
Almejava tantas coisas, que a recém deixada para trás adolescência - embora eu sempre tivesse me imposto muito mais responsabilidades e cobranças do que era de se esperar da idade - tinha dificuldades de mensurar seus horizontes. E, ao mesmo tempo, preocupava-me com o futuro: se já teria me definido profissionalmente, se estaria em um relacionamento, se já seria pai, em como estaria minha relação com meus pais e meu irmão e quem quer que fosse próximo naquele momento.
São preocupações que, certamente, se não passaram ou estão passando, passarão pela cabeça de todos que se permitirem refletir sobre a vida. Faz parte de ser humano.
O ponto é que, passados 10 anos, consegui alcançar a tão sonhada aprovação. Morei em outros dois estados diferentes, conheci pessoas que deixaram parte de si em mim, assim como acredito que algo meu tenha ficado nelas. Acredito que não se passa pela vida sem isso e é o que de mais bonito se pode conquistar.
Podemos ser lembrados pelos profissionais que fomos enquanto desempenhamos nossos ofícios, mas são as nossas singularidades enquanto pessoas, nossos trejeitos nas relações, o que efetivamente fica indelével no pensamento das pessoas que conviveram conosco, sejam familiares ou amigos. Às vezes, até mesmo pessoas não tão íntímas. Não controlamos o impacto que temos sobre a vida dos outros, e isso, meus caros, para além de qualquer crença religiosa, é uma espécie de imortalidade.
Mas, não desviando tanto da reflexão, nas outras esferas da vida, sigo construindo minha afetividade, desenvolvendo relações em busca do equilíbrio dos pratos da balança, que sempre pendeu para o lado profissional. Fruto, creio eu, da experiência de ter testemunhado os esforços de meus pais para que, mesmo em meio às dificuldades financeiras, pudéssemos ter uma vida em que o essencial não nos faltasse e que desse a mim e a meu irmão a oportunidade de sonhar - algo de que, infelizmente, tantas pessoas são privadas diariamente.
Todavia, nem todos os personagens da fotografia de 10 anos atrás permanecem em cena. Minha mãe e minhas avós partiram em 2019, há quase 4 anos. O tempo passa rápido demais. Ao mesmo tempo em que parece que foi ontem, parece que muito aconteceu desde então. E, de fato, aconteceu. Uma pandemia global, como a vivida em 2020 e 2021, está longe de ser algo insignificante.
Essas 3 figuras femininas fazem falta demais. Eram elementos agregadores, especialmente minha mãe. E é inevitável não pensar que elas só conheceram uma versão minha que só existia até a data em que faleceram. Isso sem pensar sob o prisma religioso, evidentemente, com a crença da vida eterna em outro plano diferente do terreno. Mas, o ponto é que a pessoa que sou hoje é bem diferente da de 4 anos atrás. E grande parte da transformação foi impulsionada pelas ausências. Acaba sendo paradoxal, pois um movimento tão signifcativo ao ponto de trazer mudanças no rumo de quem se é pode não ser da consciência das pessoas diretamente responsáveis por ele.
Se bem que podemos causar esses mesmos impactos na vida dos outros sem que precisemos morrer e sequer termos consciência disso. A morte, portanto, seria o auge do impactar inconscientemente a vida de alguém. Inconscientemente e sem intencionalidade.
Expus a meu irmão esse pensamento e ele discordou. Disse que acreditava que a versão de hoje não era tão diferente da conhecida em vida por minha mãe, pois ela sabia do que estava dentro de mim. Entendi que, no fundo, ela conhecia algo que eu não conhecia ainda, uma potencialidade ali adormecida. E isso me fez pensar: as mudanças que se operam em nós não seriam apenas o alinhamento externo comportamental a uma essência rígida que sempre esteve e estará presente? Em outras palavras, não seriam um reencontro com o verdadeiro eu, desnudo de tantas máscaras que vamos utilizando e tantas distrações que vamos acumulando no caminhar? É uma reflexão interessante essa.
O meu eu de 10 anos atrás não contava com tantas coisas ocorridas à sua frente. E condicionou inúmeras decisões à presença de elementos e pessoas que, hoje, já não estão aqui. Sobre condicionar, entenda-se por fazer e deixar de fazer coisas. É natural esse processo, todos o vivenciam. Mas a intensidade do condicionamento causa preocupação.
Há um ditado antigo, cujo autor não me vem agora à tona, que afirma "O homem planeja e Deus ri". Nada mais verdadeiro que isso. E o problema de tanto planejamento e tanta necessidade de estar no controle - aqui, mais uma vez, os ansiosos entenderão como ninguém - é que há o risco de se deixar de viver o presente com o pensamento em um futuro que normalmente não acontece do jeito que se imaginou. Isso porque, mesmo que as pessoas e as circunstâncias com que se contava quando o planejamento foi feito ainda estejam presentes, a gente já não é mais o mesmo. As prioridades terão se modificado - ou simplesmente terão passado a ser o reencontro com a essência, para seguir a lógica defendida por meu irmão.
E, pensando nisso tudo, vem a constatação: tanta energia gasta com preocupações que se demonstraram infundadas. E tantas paralisias motivadas por receios que eram pura especulação.
Não faço essa constatação com lamentação pelo que passou, até porque achar que se poderia ter feito diferente com o conhecimento que se tem hoje é de uma crueldade sem tamanho consigo próprio. Fazemos o melhor que podemos com o que temos a nosso alcance. E a pessoa que está aqui hoje é fruto do que viveu no passado, incluindo o que hoje julga que poderia ter tido um outro rumo. Nunca saberemos o desfecho.
A constatação, assim, é para daqui em diante. Não engavetar indefinidamente projetos à espera do momento perfeito, não condicionar a felicidade a resultados que podem não chegar no tempo planejado, nem esperar para aprofundar relações com pessoas que podem já não estar aqui fisicamente.
Hoje, sigo sonhando e planejando, mas sem que isso tire meus pés do presente. Mas sou vacilante, reconheço. Longe de perfeito. E está tudo bem. Conviver com a ideia do "em constante construção" é um dos meus grandes desafios de jornada e de amadurecimento emocional. Eu, que tanto quis controle e previsibilidade, pela primeira vez me vejo vivendo uma história e seguindo passos que não sei para onde vão.
Sonhava com coisas que hoje não são mais possíveis, como ver a minha mãe brincando com seus netos, por exemplo. Mas sei que a vida é o que é. Não adianta questionar o que poderia ter sido e sofrer com isso. E cada nova descoberta de mim mesmo me fascina e motiva. Não precisa estar acabado, definido. Precisa apenas ser humano, real, eu.
E, onde quer que estejam, as 3 figuras femininas seguem acompanhando meus passos e de minha família. Daqui a 10 anos ou mais. Não sei em que condições, mas, hoje, não saber não é mais tão torturante. Diria que traz até um certo sabor para a vida.
Um brinde ao futuro possível, aquele que não é vivido antes de seu tempo, a partir de expectativas irreais e ilusórias. Aquele que é humano, que erra.
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