O EQUILÍBRIO

O turbilhão de pensamentos, as inúmeras variáveis que são ponderadas, os tantos cenários que são imaginados, normalmente os piores possíveis. O sofrimento antecipado por algo que sequer aconteceu e que talvez jamais aconceterá. A luta para controlar o incontrolável, já que o futuro pode ser programado, mas nunca será exatamente o que dele se esperou quando foram feitos os planos. A necessidade de dar conta de tudo de forma imediata, quase instantânea, de resolver todos os problemas, de estar disponível para tudo e todos...  

Não tenho aqui a pretensão de cravar qualquer afirmação técnica, pois não detenho conhecimento especializado para isso. Apenas refletindo a partir de minha própria experiência, já que o mês está se encerrando e a proposta dele, sob o título "janeiro branco", era o de cuidado com a saúde mental. A busca do tão falado equilíbrio - sobre o qual costumo escrever por aqui, às vezes em prosa, às vezes em poesia.

Hoje em dia, com a velocidade da informação e das interações, com a correria da vida de um modo geral, é difícil encontrar quem não se identifique de alguma maneira com esses sentimentos. 

O imprevisível assusta. E isso ficou muito claro nos últimos anos, quando a vida se transformou radicalmente da noite para o dia, por causa da Pandemia do COVID-19. Tantos planos e projetos adiados, expectativas desfeitas, incertezas escancaradas no horizonte. Parecia que nada voltaria a ser como antes.

Eu gosto de pensar que esse evento adverso global não deixou as coisas incertas. Na verdade, o que fez foi desnudar, diante de nossos olhos, algo que sempre existiu e continuará existindo: a incerteza da vida. Claro que há graus para isso, uma maior ou menor previsibilidade acerca daquilo que virá adiante. Mas, no fundo, é tudo incerto. 

E o que se faz com essa constatação? Bem, para quem sempre tentou ter alguma espécie de controle, ficou a valiosa lição, de não fácil digestão e que exige trabalho diário para ser internalizada, de que o futuro é incontrolável. Porém, pode-se controlar o que é feito hoje, no presente. 

Sempre vivi no desequilíbrio, priorizando responsabilidades em detrimento de outras esferas da vida, pensando que, no meu futuro programado, poderia deixar as coisas em equilíbrio. Mas e se não tivesse havido um futuro para que esse desejo pudesse ser posto em prática?

Não quero aqui dizer que as responsabilidades devem ser ignoradas. Claro que não. O que quero dizer é que é possível um caminho do meio para as coisas. E, sem a menor dúvida, o autocuidado, tão facilmente deixado de lado por quem mergulha em tantos afazeres, é um item essencial dessa lista. Porque sem ele nada mais pode ser feito. 

No fim do dia, acaba sendo você por você mesmo para sair de uma situação de adoecimento mental, por mais empática que as pessoas à sua volta sejam. Quando a gente "quebra", fica muito claro que é mais um número, que pode ser substituído de alguma forma na cadeia das tarefas que desempenha, que a vida dos outros segue em frente. E, no fim, tanta coisa que deixamos de fazer por nós mesmos vira apenas memória. 

Por isso, se é certo que o futuro não pode ser controlado, ele pode ser construído a partir de boas ou más persperctivas a partir daquilo que é feito hoje, no presente. O equilíbrio deve ser buscado diariamente, exercitado. Sempre tendo em mente que a vida nunca estará com tudo alinhado, em seu lugar, para que aquele projeto pessoal que continuamente vem sendo deixado de lado possa finalmente ser posto em prática. Isso porque a perfeição simplesmente não existe, por mais sedutora que essa ideia seja. 

E é sob essa percepção que tenho tentado levar a vida nos últimos dois anos. Aprendendo a aceitar as limitações de quem sou, as imperfeições, mas trabalhando para equilibrar o que estava em desequilíbrio. É um processo em que a gente vai se desconstruindo, aprendendo coisas sobre si que não achava que estivessem ali, que não seriam possíveis. Começa a ver que determinados aspectos que imaginava de si mesmo eram muito mais uma projeção das expectativas dos outros do que a essência de si. É uma jornada que tem sido boa de ser vivida, tem eliminado tantos adoecimentos do corpo e da mente. 

Quero, assim, testemunhar que nunca é tarde para corrigir o curso das coisas enquanto se ainda se está vivo, mas que não se deve adiar mais um dia sequer. Talvez não haja o dia de amanhã para começar a equilibrar os "pratos" que seguem girando continuamente. 


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