SEIS DE SETEMBRO

Mais um seis de setembro. Acordei cedo, com o dia estranhamente mais frio para a época do ano. Tem sido assim ultimamente. Não sei se quer dizer algo especificamente, se são as alterações climáticas ou, simplesmente, circunstâncias ocasionais. Como quase tudo na vida – senão ela por inteiro -, aliás.

Lembro que, há três anos, no dia de hoje, cada dia era, de fato, um dia de cada vez. As angústias e ansiedades de saber como minha mãe amanheceria, se sua noite de sono teria sido melhor, quanto tempo ainda lhe restaria ao nosso lado. E o exercício de pensar sobre o futuro era sempre desafiador. Trazia consigo um misto de esperança – ela nunca se perdeu – e medo – e se aquela pessoa tão importante já não estivesse mais aqui no quadro que imaginava?

Naquele seis de setembro de 2019, minha mãe amanheceu diferente. Mais disposta em relação aos dias anteriores, com vontade de comer, fazer planos. Enquanto ela terminava de tomar o café, algo que já não vinha conseguindo fazer muito bem, devido às dores e aos enjoos, eu lhe falava que iria sair rapidamente, iria à academia, mas que logo retornaria. Saí de casa com uma mãe descansando no sofá, deitada de lado, como gostava de fazer.

Eu planejava buscar também um poster de Nossa Senhora de Fátima – santa da qual minha mãe era muito devota e à qual dirigia suas orações nas horas mais difíceis. E ultimamente estavam sendo muitas –, que havia deixado numa loja de molduras, para fazer um quadro. A ideia era lhe dar de presente de aniversário, que seria no dia doze daquele mês. Planejávamos uma festa no dia treze, para celebrar a vida, cada dia desse milagre que é tão subestimado quando o seu fim ainda não é tão anunciado.

A minha ideia era buscar o quadro apenas quando retornasse da academia. Por alguma razão, contudo, decidi fazer o contrário e buscá-lo imediatamente. Deixei-o na portaria do prédio e pedi que a nossa ajudante o buscasse, pois receava que, por acidente, alguém esbarrasse e quebrasse o vidro. Assim ela fez.

Fui, então, à academia ter um breve momento de autocuidado, o que vinha negligenciando constantemente, em razão da ansiedade e do medo de não estar presente em casa para o que quer que fosse. Eis que, por volta de umas 11h, recebo uma ligação do meu irmão – quem o conhece sabe que é bem incomum – perguntando sobre o nome da médica que havia atendido minha mãe na emergência do Quinta Dor.

Aquilo me deixou extremamente preocupado, com uma sensação ruim mesmo. Saí correndo e passei em casa apenas para pegar o carregador do celular. De lá, segui para o hospital, onde já estavam meu pai, meu irmão e nossa ajudante. Já não vi minha mãe. Havia sido levada para dentro, onde, segundo um médico com quem falamos – chamado Ciro. Lembro-me como se fosse hoje do rosto e do nome –, tentavam reanimá-la. Era grave, já estava com o corpo muito debilitado pela doença. Ele disse que poderíamos nos preparar para uma possível notícia que passei dois anos receando receber. O dia que não queria viver.

Eu senti, naquele momento, que havia mesmo chegado. Antes de receber o anúncio, de se consumar a partida. E assim foi. E eu só pensava que não havia conseguido me despedir na hora derradeira. Que havia saído de casa como se pudesse retornar e ver minha mãe um pouco melhor, saber qual seria sua reação ao presente, se aquilo havia deixado o seu dia um pouco mais leve. Não era sobre o presente em si, mas sim sobre vê-la bem.

Nossa ajudante me disse que, quando entreguei o quadro, ela imediatamente o mostrou à minha mãe, que ficou muito feliz e, inclusive, escolheu a parede da sala onde seria pendurado. Pouco depois de ter feito isso é que passou mal, iniciando a partida física para a qual nenhum de nós jamais estaria preparado.

Aquilo, de alguma forma, reconfortou meu coração. Senti que havia trazido um pouco de paz para a partida. E que, talvez, aquela melhora repentina que minha mãe tinha tido ao amanhecer era uma preparação para o que vinha, o início do descanso de um combate travado arduamente por alguém que, apesar de tudo, seguiu mantendo sua fé e sua força, sempre admiráveis, um exemplo até hoje para mim.

O ponto é que aquele dia amanheceu de um jeito e terminou de outro. Como tantos na vida. Veio cheio de possibilidades e foi embora de uma forma muito triste. Parecia o fim de tudo. Mas houve um dia seguinte, anos seguintes. Uma pandemia no meio do caminho, mudança de casa, mudança de planos, nova atuação no trabalho, ressignificação das prioridades da vida, um novo olhar sobre o que efetivamente importa.

Aquele seis de setembro levou consigo a presença física de uma das pessoas que mais amo – sim, no presente –, mas deixou o exemplo de que devo seguir em frente, fazendo de cada dia um momento que valha a pena. E não esperar o vislumbre do fim para me dar conta disso. Tem sido anos difíceis, especialmente por conta de tudo o que o mundo viveu com a pandemia, mas, também, de transformação pessoal.

A saudade é grande, porém sinto que minha mãe está sempre junto a mim. Não há um dia sequer em que não pense nela, sobre algum aspecto de sua personalidade. Muitos de seus trejeitos vejo em mim. E penso que isso é o que a mantém viva. É o conceito de eternidade, para além de qualquer crença religiosa, que uma vida bem vivida pode trazer. Quando, mesmo não estando mais aqui, vivemos naqueles que seguem adiante.

Cada seis de setembro se inicia com a lembrança, lágrimas inevitáveis, mas que logo cedem lugar à esperança, à vontade de ser melhor, de fazer valer a pena. De honrar a memória de quem lutou tanto por mais tempo aqui. Obrigado, mãe, por tanto! Te amo!   

Comentários

  1. Tiago, que relato forte e lindo! Com certeza esse texto chegou até sua mãe de alguma forma!
    Bjs

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  2. Tiago, que emocionante seu relato. Muita luz!!!

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  3. Sorte minha poder fazer parte dessa partilha de amor. Amor puro, genuíno, forte e ao mesmo tempo suave. Muito lindo. Lindo demais. Profundamente tocada.

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