MUDANÇAS
De repente, algo que fazia tanto sentido deixa de fazer e você se pergunta como aquilo pôde ser tão importante, ocupar tantos pensamentos e preocupações ao longo dos dias. E, da mesma forma, algo antes sem tanta importância passa a ser fundamental para você.
Engraçado como são os ciclos da vida. Iniciam-se com a novidade e a empolgação típica de projetos novos. Seguem por muito ou pouco tempo a fio, a depender do que está em jogo. E, do nada, mais que de repente, já não parecem mais tão significativos. É como se um dia a gente acordasse e não quisesse mais comer aquela comida preferida de todos os dias. Simplesmente tivesse enjoado e quisesse algo novo.
Essa sensação todo o mundo certamente já experimentou em algum momento da vida. Mas, nem todos de fato abraçaram o desafio de seguir o que sentem e rumar para caminhos novos. Claro que não é tão simples, pois os ciclos podem envolver desde uma forma de se vestir ao trabalho que se exerce, aos relacionamentos que se cultivam, sejam familiares, amorosos ou de amizade.
Por vezes, não será possível alinhar o agir com a vontade. Talvez seja preciso mais tempo, organização, para concretizar a mudança que já aconteceu no plano das ideias.
Gosto de pensar que, quando nossa mudança é perceptível para os outros, quando ela emerge à superfície, é porque já vinha se operando há muito tempo internamente. A gente já vinha flertando com a ideia do novo, com um rumo diferente. Ao menos comigo é assim.
As pessoas se surpreendem, acham que foi repentino, mas quase nunca é. Talvez nós mesmos pensemos que foi repentino, mas, no íntimo, se formos refletir com calma e ouvir a voz interior, veremos que sempre esteve ali o desejo. E é a possibilidade de colocá-lo em prática, mesmo que aparentemente não dê certo, o que nos faz crescer.
O fato é que tenho estado mais atento a esses sinais em minha vida. Parando para pensar, também, até que ponto algo me acompanha porque faz sentido para mim ou porque seria natural que fizesse sentido segundo o senso comum. Se é um passageiro que escolhi trazer comigo ou um caronista que já estava no veículo quando assumi a direção.
Percebam a sutil diferença entre essas ideiais: no primeiro caso, é levada em consideração a individualidade, significando que não necessariamente determinada coisa que é boa para um fará sentido para o outro. No segundo caso, é praticamente um "efeito manada", ou seja, fazer o que todos estão fazendo, porque está previsto numa fórmula de felicidade que ignora o que realmente é relevante segundo a subjetividade de cada um. Aí entram as viagens para determinado destino turístico, casamento em determinada idade, número de filhos, dentre diversos outros padrões impostos e reforçados pela sociedade.
Hoje, tenho buscado mais o sentido para mim, do que efetivamente tentar me encaixar em qualquer modelo, por mais que, é claro, a experimentação acabe esbarrando em modelos pré-existentes. Mas até aí tudo bem. Fugir de modelos também não pode virar uma obsessão, sob pena de virar um modelo de comportamento por si só, destinado a remar sempre contra a maré, sem parar para pensar se seguir a maré não seria interessante em determinada ocasião.
No final das contas, a impressão que tenho é a de que o melhor termômetro para essa tomada de decisão seja o da felicidade. Afinal, o sentido só surge para nós quando algo, de alguma maneira, faz de nós pessoas mais completas. E é nessa completude, que não se confunde com perfeição, que reside a felicidade. E, assim, seguimos mudando, sendo pessoas diferentes a cada momento, encerrando ciclos para que novos possam começar.
E está tudo bem. A vida é muito longa para sermos uma única versão de nós mesmos.
Comentários
Postar um comentário