PEQUENA FAMÍLIA

Talvez o texto soe um pouco melancólico, mas é uma expressão sem travas, sem receios. Um desabafo sobre o qual venho pensando há um tempo, maturando. Sinto que preciso fazer para colocar as coisas no lugar na cabeça. E o faço do celular mesmo, sem grandes recursos de um computador ou coisa parecida. 

Pois bem. Feito o alerta, se quiser seguir a leitura, será muito bem-vindo(a), é claro. 

Eu cresci em uma família muito amorosa. Por família, refiro-me a pais e irmãos. Pessoas que sempre fizeram de tudo por mim, incentivadores constantes para qualquer projeto que eu tivesse. E essa base foi sempre muito essencial para a minha vida. 

Minha mãe, em especial, era um ponto de agregação, daquelas pessoas de conversa fácil que cativavam a todos que a conhecessem. Era natural que a casa estivesse sempre cheia, com parentes e amigos, para celebrar as mais variadas ocasiões, fossem aniversários, Natais, viradas de ano ou qualquer outro motivo que encontrasse para simplesmente nos reunirmos. E o Natal, sem dúvida, era a minha data preferida. 

No ano de 2019, contudo, as coisas sofreram uma mudança grande e inesperada. Talvez não tão inesperada, mas nutríamos esperanças em relação a um desfecho diferente. 

Diagnosticada com um câncer de pâncreas em 2017, após voltarmos de uma viagem à Itália (a primeira até hoje que fiz para o exterior), minha mãe travou uma batalha enorme por dois anos. Tenho muito orgulho dela por isso. Foram muitos os altos e baixos, as dores, as pequenas vitórias celebradas, a angústia por cada resultado do exame mais simples que fosse.  E lá estava ela. Firme, encarando de frente coisas tão intensas, que acredito que a grande maioria não suportaria sequer pela metade do tempo que ela suportou. E nós estivemos ali juntos. Acompanhando, vivendo e sofrendo. A família também adoece, inevitavelmente. Quando digo família, perdoem-me os que se compadeceram da dor, falo em filhos e marido. Não tinha como ser diferente. Era quem estava sob o mesmo teto. Não há aqui qualquer tom de crítica, entenda. 

E é uma dor que nem a mais profunda empatia consegue alcançar. 

O fato é que, no fatídico 2019, minha mãe descansou após dois anos de bom combate. Mas não foi apenas ela. Minhas duas avós também se foram no mesmo ano. A paterna em fevereiro e a materna, em agosto. Apenas 10 dias antes de minha mãe. Parece até uma piada daquelas tragédias gregas ou mexicanas. Mas, acreditem, é verdade. Foram tão intensos os solavancos, que eu juro que acreditei que não teria forças de seguir em frente. Como conceber a vida após a perda de pessoas tão importantes? Como internalizar perdas tão próximas, tão seguidas umas das outras? Fica a sensação de que não conseguimos dar o devido luto a cada uma na proporção merecida. Amo minhas avós, mas a falta da minha mãe foi mais arrebatadora. Até hoje. 

Nesses eventos, é natural que os que ficaram prestem as homenagens, digam que estarão sempre ali pelo que sentiram os efeitos da perda mais proximamente. São feitas promessas: vamos manter o contato, vamos nos falar. Mas, quando se fecha a porta do quarto e são apagadas as luzes, o choro e a saudade são muito individuais. Não há amparo que nos afaste disso, da dor da perda. E, por melhor que sejam as intenções das pessoas, a individualidade é inafastável. 

Pois bem. Com o tempo, acabou sobrevindo esta tragédia da contemporaneidade que conhecemos por COVID-19. Os afastamentos foram inevitáveis. Mas, em alguma medida, catalisou-se algo que eu já sentia que naturalmente aconteceria. A família encolheu em sua essência. E isso dói com certa frequência. Alguns dias mais, outros menos. 

O dia das mães é sempre muito difícil. As redes sociais são inundadas com a vitrine de felicidade alheia, com as reuniões de mães e filhos. E não dá para não sentir falta disso, não invejar em alguma medida. Sou humano, afinal. 

Neste ano de 2021, resolvi fazer algo diferente. Hospedei-me em um hotel fazenda na região serrana do Rio de Janeiro. O objetivo era ter um momento comigo mesmo. Foi maravilhoso, uma experiência que eu, que sempre vivi muito mais para os outros, permiti-me ter. E digo que foi a primeira de muitas.

Mas, acabou sendo triste também. No dia das mães, vi uma família sentada à mesa. Os pais, os filhos (dois irmãos) com as respectivas esposas e os netos. Aquilo mexeu muito comigo. Sempre imaginei eu e meu irmão nesse quadro. Nossa mãe seria a avó que amaria e zelaria incondicionalmente pelos netos. Estaria ali celebrando cada momento da gestação. Seria aquela sempre pronta para comandar as celebrações do ano, agregando a todos, como sempre fez. 

Pensar que essa possibilidade nos foi arrancada pelas circunstâncias da vida, tão imprevisíveis, doeu muito. Foi desnudada, diante de mim, a ausência. Um futuro que ficou apenas nas idealizações. 

Em meio a tanta tristeza, respirei fundo e agradeci. Sim, agradeci por tudo o que a minha mãe foi. A semente que ela lançou em nós, eu e meu irmão, quando nos deu os valores que hoje fazemos questão de ostentar e honrar. Parabenizei-a e disse, em oração, que tinha muito orgulho da mulher maravilhosa e forte que foi. Alguém que muitas, perdoem-me a franqueza, não conseguirão ser a metade. E não falo por ter sido filho. 

Tinha defeitos, é claro. E muitos. Mas amava com uma intensidade que fazia deixar a si mesma de lado em prol da família. E isso nós seguimos mantendo. Nós três. 

Não vou dizer que não gostaria de ter uma família daquelas que viaja junta, faz festas juninas anualmente, que tem suas desavenças e comunhões rotineiras. Sei que não há perfeições, não sou ingênuo. Mas não posso deixar de aceitar que a vida é como é. Temos que fazer dela o melhor que podemos com o que temos nas nossas mãos. Não adianta esbravejar e lamentar o que poderia ter sido. 

Com esse pensamento, vamos seguindo os três. Com a fé de que encontraremos quem vá agregar a nossa pequena família, independentemente de questões sanguíneas. Família não precisa disso. Diria que quase nunca, no alto da minha singela experiência, isso quer dizer alguma coisa. Tenho amigos que são mais família que os parentes, muitos deles perfeitos estranhos, que conhecem apenas a ideia que fazem de mim. Não sabem como penso, como sinto. O que mexe comigo de verdade. 

E está tudo bem. Não controlamos as relações, as afinidades. E nada pode ser forçado, artificial. 

Enfim, venho há muito tempo pensando sobre isso. Faltava-me a coragem para colocar no papel (no caso, na tela). A melancolia a que me referi no início está na quebra do mito da perfeição. Está em assumir que podemos ficar tristes e querer que as coisas fossem diferentes. Contudo, pensando agora, será que isso é mesmo melancólico? Não seria uma honestidade para consigo mesmo e os outros? A gente precisa saber o que nos afeta. Sem isso, não somos melhores, não amamos. 

Só sei que, independentemente de qualquer coisa, do tamanho e dos integrantes da minha família, os valores da minha mãe estarão sempre nela. E isso sempre farei questão de preservar. 

(O texto não foi revisado. Deixei os erros que porventura existirem, porque, na vida, não cabe reescrever o que já foi escrito. No máximo escrever outro texto corrigindo erros passados. Mas será sempre outro texto. E não há nada de errado nisso. É até mais bonito, penso eu)

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