ZONA DE CONFORTO CULTURAL
Há um tempo que tenho pensando sobre como a forma de se consumir cultura tem mudado significativamente com o passar do tempo. Como temos buscado um imediatismo maior naquilo que escolhemos para ocuparmos nossas horas livres, seja por mera distração ou para agregar algo no intelecto que possa ser utilizado para demonstrar um certo ar de sofisticação nas conversas com os amigos.
Não vou tentar definir cultura aqui, porque sou contra qualquer tipo de rótulo que se tente dar. Tentativas de definição, por si só, já são limitantes. E, em se tratando de manifestações múltiplas, acabam sendo um terreno fértil para um preconceito sobre o que deve ser priorizado em detrimento de quê. Acredito que toda forma de manifestação humana, seja para provocar ou não uma reflexão, seja voltada ou não para um público, é cultural. Tomemos, assim, essa noção como premissa para esta reflexão.
É lugar comum que o hábito da leitura de livros é algo que há muito vem sendo deixado de lado pelas pessoas. Mesmo as redes sociais têm perdido o apelo por extensas mensagens de texto - há os adeptos dos textões, é claro -, substituindo-as pelos memes e fotografias do Instagram e pelos tweets de ágil veiculação de pequenas informações do Twitter. A velocidade com que tudo acontece, a necessidade de estar integralmente antenado às mudanças, impõe que não se perca tempo fazendo grandes divagações. É preciso ser curto e direto. De preferência, fazendo algo que possa ser compartilhado nos grupos de WhatsApp o quanto antes. Se você for o primeiro a fazer isso, a satisfação estará completa.
Mas e quanto ao cinema? Parece que essa mesma dinâmica tem sido impressa no audiovisual. Cada vez mais as pessoas - eu eu - têm optado por séries ao invés daquele filme que está na lista há um tempão para ser assistido. E são cada vez mais numerosas as séries! Antes, podíamos contabilizar umas 10, com cerca de 20 e poucos episódios por temporada. Hoje, a competição entre as plataformas de streaming (Netflix, Amazon Prime, Now, Globo Play...) tem levado ao surgimento de tantas novidades, que é impossível acompanhar todas. E o número de episódios por temporada parece ter sofrido uma redução para se adequar a isso.
Há, é claro, um evidente interesse comercial na tendência, já que séries podem ser iniciadas e interrompidas mais facilmente, adequando-se ao gosto do público e se tornando mais vendáveis. Mas isso responde a um hábito dos telespectadores. É esse ponto que tem despertado meu interesse.
Pergunto-me até que ponto é só a velocidade das coisas, a atenção que não fica mais presa por muito tempo e que precisa de estímulos constantes e variados, a causa dessa nova forma de consumo cultural. Estive pensando a respeito. Sim, sou dessas divagações aparentemente inúteis para a maioria. Veja que a própria ideia de fazer um blog vai totalmente contra a tendência atual dos perfis "instagramáveis". Eu poderia perfeitamente estar divulgando o link desta postagem no scrapbook de um perfil do Orkut ou enviando-a pelo MSN...rs. Enfim, não percamos nosso foco.
O ponto é que parece que as séries demandam menos investimento. Uma vez existindo uma identificação com os episódios iniciais, o espectador terá encontrado uma zona de conforto para o seu lazer controlado. Não será, em princípio, surpreendido com grandes reviravoltas e, ao mesmo tempo, poderá desfrutar da companhia de personagens que farão parte do seu círculo imaginário de convívio. E não há a obrigação de ver até o final, é menos condenável abandonar no meio do que um filme. Sem falar que muitas séries acabam se estendendo por pelo menos uns dois ou três anos.
Além de eu conseguir enxergar aí um receio de sair da zona de conforto, de desbravar algo novo e que pode ser muito bom - ou também muito ruim -, vejo também, na minha humilde visão de quem também está inserido na realidade, uma dificuldade de lidar com encerramentos, com finais. O final de uma série demora mais a chegar que o de um filme. Isso obriga a pessoa a reiniciar o processo em busca de algo que pode ser surpreendentemente bom ou ruim. E é o medo dessa segunda possibilidade que é paralisante. Como correr esse risco, quando se tem tantos outros estímulos mais imediatos e seguros?
Será esse um mecanismo de segurança? A preferência por se apegar a uma certa estabilidade no passatempo, ao invés de mergulhar de cabeça numa experiência que terá feito simplesmente perder tempo, se tiver sido ruim. E acho que isso é um reflexo da forma como temos vivido também nossas relações. Sem profundas conexões com as pessoas, com medo do comprometimento. Sem refletir antes de dar aquela resposta a uma postagem feita em rede social, presumindo que se é amigo íntimo daquela pessoa, que se conhece suas mazelas mais profundas pelo tão só fato de ela estar em sua lista de amigos/seguidores.
Bom, a divagação pode seguir ainda por muitos outros caminhos, mas não quero me fazer enfadonho. Provavelmente, quem se identifica com o que falei talvez nem tenha lido e simplesmente optou por deixar de lado. Excedi o limite máximo de caracteres aceitáveis. Acho que até mesmo para um textão...rs. Não pretendo trazer respostas, nem fazer um ensaio sociológico/antropológico sobre o tema. É uma mera reflexão. Ainda estou tentando me entender em meio a isso tudo e, cada vez mais, chego à conclusão de que a busca pelas perguntas certas é muito mais importante do que ter as respostas.
Dito isso, deixa eu voltar agora para mais um episódio de Grey´s Anatomy, minha zona de conforto cultural...rs.
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