PONTOS FINAIS
Os encerramentos são das coisas com as quais sempre tive dificuldades de lidar. Acredito que o mesmo aconteça com a maior parte das pessoas. Dizer adeus a pessoas, lugares, fases e momentos que trouxeram boas experiências é muito difícil, porque traz consigo a sensação de que não seremos capazes de vivenciar algo semelhante no que estar por vir. No fundo, é o medo do desconhecido, do novo. Será bom? Valerá a pena?
Por mais complicado que seja, contudo, é necessário esse desapego, seguir em frente, porque é impossível permanecer como se está indefinidamente. Ainda que as circunstâncias pareçam se manter, nós já não somos mais os mesmos, assim como as pessoas com as quais nos relacionamos também não são mais as mesmas. A mudança é um processo constante. É a metáfora de não ser possível mergulhar mais de uma vez em um mesmo rio, por estarem suas águas em constante movimento. É um clichê que se utiliza com bastante frequência, mas que não deixa de ser verdade.
Imagine, em uma narrativa, uma frase composta de indefinidas vírgulas, sem um encerramento. Seria um verdadeiro desastre, não é mesmo? Passaria a sensação de que as coisas não avançam, de que não há sequência nos acontecimentos e que todas as ideias estão irremediavelmente presas ao mesmo referencial. O ponto final entra, nessa realidade, como um importante organizador, possibilitando que as frases seguintes, mesmo que guardem relação com a anterior, sejam um avanço de noções construídas anteriormente.
Assim, penso eu, acontece na vida. Sem os encerramentos, os pontos finais das narrativas de nossa existência, não avançaríamos, não permitiríamos que a história encontrasse o seu rumo e que o amadurecimento acontecesse. Isso não significa apagar o que passou. Do mesmo modo que em um texto não se eliminam as frases já construídas, sob pena de se perder por completo o sentido do que foi até ali desenvolvido, nossas experiências definem o que somos hoje, essa soma complexa de sínteses, antíteses e paradoxos.
Acredito que a tentativa de querer se apegar e se agarrar a determinadas coisas é um dos atos de maior agressão consigo mesmo, pois impede um verdadeiro crescimento. Sem falar que é tão eficaz quanto tentar reter a água do mar entre as mãos enquanto as ondas avançam sobre si. Simplesmente não é possível.
Minha dificuldade em lidar com os encerramentos está no fato de sempre ter me conectado com determinadas pessoas de forma muito determinante, em especial meu núcleo familiar mais próximo e meus amigos. E a presença dessas pessoas em determinadas situações de adversidade fez se desenvolver em mim a crença de que não conseguiria lidar com tantas outras questões difíceis se essas pessoas já não estivessem mais aqui.
Mas, o que fui aprendendo com o tempo é que há aqueles que passam fisicamente por nossas vidas, mas permanecem em nós, por terem nos transformado no íntimo, passando a influenciar a forma como encaramos as coisas. Afinal, relacionamentos, quaisquer que sejam (pais, amantes, amigos, colegas de trabalho...), desenvolvem-se a partir de interferências recíprocas. Deixamos parte de nós nos outros, ao mesmo tempo em que os outros deixam parte de si em nós. E isso ocorre naturalmente.
Além disso, comecei a perceber que novas pessoas sempre surgem e que, para que isso aconteça às vezes, é necessário que alguém tenha me deixado aberto, a partir de seu encerramento ou ponto final, a essas novas experiências. Estar tão preso ao que passou nos impede de enxergar o que de novo pode nos ser igualmente bom ou até melhor.
Dessa forma, encerremos e pontuemos o que for para encerrar e pontuar sem deixar que o medo nos paralise, senão nossa narrativa não avançará da melhor forma que tem o potencial de avançar. E isso jamais significará apagar o que já foi escrito até o momento. Terá sido mais um elemento a compor o mosaico que todos somos, em nossas contradições que nos diferenciam de qualquer outra pessoa, que compõem a nossa singularidade humana.
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