ESPECTADOR DE MIM MESMO
Aproximadamente às 14:30h do dia 24 de maio de 2020, uma tarde chuvosa. Resolvi, após muito tempo e diversas experiências, tristes e felizes, voltar a escrever. Não necessariamente sobre minha vida em si, porque, quando a gente tenta qualificar, rotular, acaba limitando as possibilidades. A vida pode surgir eventualmente ou principalmente, mas não pretendo que seja o único assunto tratado. Pensamentos, devaneios, reflexões, tudo o que faz a essência de alguém...
Por alguma razão, talvez por causa da Pandemia de COVID-19 em que estamos mergulhados desde o início do ano - essa realidade sci-fi imprevisível até mesmo pelos mais insanos roteiristas de Hollywood -, tenho me conectado mais comigo mesmo, com aquilo que me permito ser quando não há espectadores. Se bem que é curioso pensar que, por vezes, encenamos em um palco sem que nós mesmos sejamos espectadores.
Acordei cedo, como tem sido de costume nos últimos dias, e fiquei um tempo contemplando o silêncio, deixando-o preencher os espaços. Esse tem sido um pequeno prazer ultimamente, quando todos ainda dormem. A sensação de estar ali sendo simplesmente eu, sem maiores interações. E a tecnologia, ao mesmo tempo que torna possível reduzir distâncias, também paradoxalmente nos distancia de nós mesmos. Nesse momento primeiro de silêncio, não sou tomado pelas inúmeras mensagens diárias de WhatsApp que chegam tratando dos mais variados assuntos, em grande parte relacionados ao trabalho. Posso simplesmente contemplar o nada, e isso é libertador.
Esqueci de mencionar que hoje é domingo. E um domingo chuvoso! A combinação do dia da semana de que menos gosto com o clima mais melancólico. Mas, curiosamente, está me fazendo muito bem. Decidi iniciar, após a contemplação do silêncio, assistindo a um filme - tenho deixado um pouco as séries de lado - que há muito vinha relutando para assistir. Sempre adiando, por preguiça e busca de coisas de mais fácil "digestão". Trata-se do "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Posso dizer que valeu cada segundo a experiência. A forma como a memória é retratada, como, mesmo esquecendo, remanesce em nós o impulso que nos faz querer estar perto de uma determinada pessoa, foi formidável.
E isso me impulsionou a voltar a escrever. Algo de que sempre gostei - em certa altura do colégio, cogitei fazer faculdade de Letras, tendo optado, ao final, pelo Direito -, mas que foi sendo deixado de lado com o passar dos anos, transformando-se em uma obrigação do trabalho, no desenvolvimento de períodos tecnicamente adequados à defesa de teses jurídicas. Triste demais.
Agora à tarde, quando iniciei estas palavras - uma taça de vinho é sempre bem-vinda nestes momentos -, passava num dos canais da TV a cabo "Em algum lugar do passado", um dos filmes favoritos de meus pais e de meu avô paterno. Meu irmão está, inclusive, aprendendo a tocar a música tema no piano por causa disso.
Não pude deixar de lembrar que, da última vez que assisti a esse filme também foi num domingo, mas à noite e na TV aberta. Arrisco dizer que foi em julho de 2019, durante minhas férias do trabalho. Assisti deitado ao lado de minha mãe, na cama do quarto de meus pais. Meu irmão e meu pai estavam na sala. Na ocasião, ela já estava bem debilitada por causa do câncer de que se descobriu acometida no final de 2017. Sim, essa doença cujo nome assusta e que traz uma série de estigmas junto de si. Que está longe de afetar apenas o doente, como também todos os que convivem com ele diariamente. Com minha mãe não foi diferente. E presenciamos uma verdadeira guerreira, que lutou arduamente todos os dias e com todas as forças que tinha. Um exemplo de perseverança e fé para todos nós. Aos olhos humanos, pode-se dizer que perdeu a batalha, mas não pensamos assim.
Voltando ao filme, lembro de ter chorado no final. Eu, aliás, sou muito emotivo em filmes e literatura. Durante muito tempo, tive a sensação de que, na vida real, não tinha essa mesma capacidade - lembro-me de ter me questionado isso aos 15 anos, quando faleceu meu avô materno -, mas a maturidade dos anos, em especial o falecimento de minha mãe apenas dois meses após aquele julho de 2019, mostrou-me o contrário. Talvez a intensidade da convivência seja a tônica marcante dessas emoções afloradas.
Ao final do dia, ficou a sensação de ter sido, para fugir à regra de dias automáticos, um verdadeiro espectador de mim mesmo, de minha liquidez imaginativa ou apenas sensorial. Não houve outra plateia, mas é o que me basta. O essencial deve fazer sentido, antes de mais nada, para nós mesmos. Todo o resto é colateral.
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