ENCONTRO DE MÁSCARAS
Dama de máscara florida troca olhar com cavalheiro de máscara ninja preta. Estão na fila de uma loja de conveniências, mantendo o distanciamento social de dois metros. Ambos não se conhecem, não fazem a menor ideia do que os reuniu ali naquele momento: um frasco de álcool gel, mais valioso do que ouro nestes dias de Pandemia.
O vendedor anuncia que só resta um a ser vendido. Não há mais no estoque, não tendo previsão de entrega imediata.
O cavalheiro, que está na frente da dama, diz que aquilo não era possível, que há dois dias lhe tinham avisado que o estoque fora recomposto.
O vendedor responde dizendo que as coisas andam assim, que esse tipo de mercadoria acaba mais rápido do que água no deserto. Diz-lhe, contudo, que não deveria desanimar, pois, em breve, haveria mais no estoque. Desta vez, o dono do estabelecimento se encarregaria de encomendar mais. De todo modo, havia um frasco à disposição.
A dama da máscara florida observa atentamente a tudo, já desanimada com as perspectivas. Era quase certo que o cavalheiro iria comprar o único frasco existente na loja. E ela precisava tanto... Como iria higienizar as mãos após pegar a condução para o trabalho?
O cavalheiro olha para trás e, numa conexão repentina, desabafa com a dama, dizendo que não era possível que só houvesse um frasco, que o país não tinha jeito mesmo. Pergunta se ela estava ali em busca do mesmo produto.
Ela responde positivamente, já se preparando para se retirar da loja e rumar em direção a algum outro lugar onde pudesse encontrar o tão desejado produto.
Nesse momento, o cavalheiro a interrompe e diz: “Moça, aonde você vai?”
Ela responde, meio sem jeito, meio sem esperança, em tempos em que a esperança é uma palavra tão perigosa quanto a liberdade em um presídio: “Vou tentar a sorte nas lojas daqui de perto”.
O cavalheiro, então, diz: “Mas tem aqui. A preferência é sua. Não vou deixar as minhas boas maneiras de lado porque o mundo está acabando. Damas vêm sempre em primeiro lugar. Além disso, eu suponho que a sua necessidade seja mais premente que a minha”.
A dama ficou tocada com o gesto. Pensou consigo mesma que nem tudo estava perdido, afinal. Que havia razões para continuar acreditando em dias melhores. Enquanto alguém estivesse disposto a sacrificar as próprias necessidades imediatas em prol de outro alguém, as coisas haveriam de ter uma salvação. Mas respondeu: “Fico imensamente tocada com seu gesto, mas não posso deixar de pensar que você chegou primeiro, que alguma ordem há de ser mantida. Sem essas coisas básicas, nada nos afasta da selvageria”.
O cavalheiro, sem jeito, disse então: “Por que não fazemos então o seguinte: dividir o frasco? É uma forma de conciliar a minha necessidade com a sua. Desse modo, ambos saímos beneficiados.”
A dama pensou que essa era uma solução para tantos problemas da humanidade, que a necessidade de ser o único dono, senhor de todas as coisas, individual por essência, estava levando as pessoas a brigarem por coisas que poderiam ser perfeitamente compartilhadas. Que a ânsia pelo acúmulo fazia com que alguns tivessem em excesso o que faltava a outros. Ela, então, respondeu: “Por que não? Admiro seu gesto. Se cada um dividisse, não faltaria para ninguém.”
Ambos, então, compraram o tão desejado produto e o dividiram. Trocaram telefone, mantiveram contato e trocaram as experiências que acumularam ao longo das próprias trajetórias. E permitiram-se seguir no ato de ser além de um, além da própria vontade como soberana. Porque quem aceita que a própria vontade não é soberana descobre que a felicidade está em compartilhar as pequenas coisas. Até mesmo um mero frasco de álcool gel. E aprende que as coisas assumem valores diversos conforme as circunstâncias presentes.
E, nessa dança, tantas máscaras ninjas e floridas descobrem-se cúmplices da mesma essência.
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